Relatório produzido na estruturação da AJDS reúne dados territoriais, entrevistas e modelagem para orientar políticas públicas e investimentos.
Como fortalecer a produção agroindustrial de Goiás considerando também o uso da terra, a inclusão social e as emissões de gases de efeito estufa? Essa é a questão central do relatório Estratégias para o desenvolvimento de cadeias agroindustriais em Goiás, produzido no âmbito da estruturação da Abordagem Jurisdicional para o Desenvolvimento Sustentável (AJDS). O estudo analisa dados de 2019 a 2024 sobre cinco cadeias – pecuária bovina, soja e milho, cana-de-açúcar, silvicultura e agrosociobiodiversidade – e combina essa análise com entrevistas e modelagem prospectiva.
Cada cadeia enfrenta obstáculos diferentes
O relatório mostra que o crescimento da produção de soja e milho pressiona uma capacidade de armazenagem que não avançou no mesmo ritmo. Na cadeia sucroenergética, a elevada produtividade abre possibilidades de diversificação, mas a expansão depende de infraestrutura e investimentos. Já a silvicultura requer financiamento adequado a ciclos produtivos longos e maior previsibilidade da demanda industrial.
Na agrosociobiodiversidade, ligada à agricultura familiar e ao extrativismo, os entraves têm outra natureza. A pequena escala, a sazonalidade e as exigências de formalização dificultam o acesso a crédito e mercados. O estudo aponta, por isso, a importância de adaptar os instrumentos financeiros, apoiar o beneficiamento local e fortalecer mercados que valorizem a produção e a conservação do Cerrado.
Na pecuária, produzir com mais eficiência não basta
Entre 2019 e 2024, a área de pastagens em Goiás diminuiu 10,2%, enquanto o rebanho cresceu ligeiramente, indicando avanço da intensidade produtiva. A pecuária bovina, porém, continua central para a agenda climática: a fermentação entérica respondeu por cerca de 41% das emissões estaduais estimadas para 2024.
Para examinar os efeitos da intensificação, o relatório modelou um cenário de dez anos no qual a produção de carne aumentaria 45% e as emissões por quilograma produzido cairiam 10,5%. Nesse mesmo cenário, as emissões totais cresceriam aproximadamente 26%. O resultado não é uma previsão inevitável; ele demonstra que ganhos de eficiência, isoladamente, não garantem a redução das emissões quando a produção e o rebanho também se expandem.
Ilustração dos processos e parâmetros para modelagem da pecuária bovina adotados no estudo.
O diagnóstico orienta decisões em cada território
As recomendações do estudo relacionam os desafios das cadeias às condições dos diferentes polos produtivos de Goiás. Entre as prioridades estão ampliar a Assistência Técnica e Gerencial, adequar o crédito aos ciclos e à escala das atividades, melhorar armazenagem, estradas e infraestrutura energética e fortalecer a rastreabilidade e a conformidade ambiental. Para a pecuária, o relatório ressalta ainda a necessidade de atuar na cria, na gestão reprodutiva e na qualidade das pastagens.
Essa perspectiva territorial é relevante para a AJDS: medidas voltadas apenas às cadeias de maior escala não respondem, por si, às necessidades da agricultura familiar, do extrativismo e das regiões com menor acesso a infraestrutura e financiamento. Ao reunir esses temas em uma mesma análise, o relatório oferece subsídios para coordenar ações públicas e privadas. Seus resultados orientam o desenho de estratégias, mas não substituem inventários de emissões nem o monitoramento dos efeitos das políticas ao longo do tempo.