Encontros com setor privado, poder público e sociedade civil identificaram prioridades para aprofundar o diálogo e orientar a estruturação da iniciativa.
A estruturação da Abordagem Jurisdicional para o Desenvolvimento Sustentável (AJDS) em Goiás começou a incorporar as perspectivas de diferentes setores por meio de oficinas participativas. Um relatório elaborado com apoio do Earth Innovation Institute registra essa primeira fase, realizada pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) em Goiânia, entre setembro e outubro de 2025. Os encontros apresentaram a iniciativa, ouviram expectativas e levantaram questões para os estudos e as próximas etapas do processo.
Três oficinas, diferentes perspectivas
As oficinas reuniram 95 participantes de 52 organizações ou comunidades. A primeira foi voltada ao setor privado; a segunda, ao poder público; e a terceira, à sociedade civil organizada, incluindo representantes de povos indígenas, comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares. Segundo o relatório, participaram 38% das entidades convidadas, dado que ajuda a dimensionar o alcance desta fase inicial e a importância de ampliar o engajamento ao longo do processo.
Integrar o que já existe e esclarecer os benefícios
Representantes do setor privado destacaram que políticas públicas em andamento e iniciativas de sustentabilidade desenvolvidas por cadeias produtivas e empresas devem ser consideradas na construção da AJDS. Também pediram exemplos práticos de seus possíveis benefícios para o acesso a mercados e novas oportunidades de diálogo para discutir os estudos técnicos. As contribuições indicam a necessidade de conectar esforços já em andamento, sem ignorar os custos que produtores e empresas enfrentam para atender a exigências socioambientais.
Articular planos, programas e áreas de governo
Subsecretário da SEMAD, José Bento, apresenta políticas ambientais desenvolvidas em Goiás
Na oficina do setor público, as apresentações evidenciaram a importância de articular a AJDS a iniciativas já em andamento, como o Plano ABC+ Goiás, o Plano Estadual de Promoção da Igualdade Racial e o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, Queimadas e Incêndios Florestais (PPCDQIF) e à estruturação do Programa Jurisidional de REDD+ (JREDD+) no estado. Nos debates, os participantes destacaram a necessidade de envolver mais os municípios e de considerar a vulnerabilidade de comunidades quilombolas e povos indígenas na definição de projetos e na destinação de eventuais recursos.
“A agenda climática em Goiás terá sucesso se for transversal, colaborativa e movida a dados e inovação”, afirmou Marcia Pires, da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI). Sua fala resume a preocupação, presente na oficina, de aproximar políticas conduzidas por diferentes instituições.
Ouvir as comunidades também nos territórios
A oficina da sociedade civil trouxe experiências de conservação, recuperação ambiental, agricultura familiar e gestão comunitária já presentes em Goiás. Ao apresentar o Programa Rural Sustentável, Josyany Duarte destacou a necessidade de apoio concreto aos produtores: “Nós temos mais de 424 produtores precisando de tudo, desde maquinário, insumos, e a gente faz esse trabalho buscando parcerias.” Sua fala mostra por que a coordenação entre iniciativas precisa chegar também aos investimentos e à assistência necessários para mudar práticas produtivas.
As contribuições de povos e comunidades tradicionais chamaram atenção para as condições específicas de seus territórios. “Não tem como pensar em transformação das práticas de produção no Território, se não tiver um investimento”, afirmou Vercilene Dias, da Associação Quilombola Kalunga. Os participantes também defenderam um diálogo contínuo com comunidades indígenas e quilombolas, inclusive com encontros nos próprios territórios para conhecer suas prioridades e ampliar o acesso a políticas públicas.
Um ponto de partida para a construção da AJDS
O relatório não apresenta decisões finais sobre metas ou ações da AJDS. Sua contribuição é registrar expectativas e prioridades que podem orientar o aprimoramento dos estudos, a coordenação entre políticas públicas e iniciativas existentes e o desenho das próximas etapas participativas. Manter esse diálogo será fundamental para que a agenda compartilhada considere as diferenças entre setores e territórios e permita acompanhar, de forma transparente, como as contribuições recebidas influenciam as decisões.