Desde 2006 os ganhos de biomassa acima do solo superaram as perdas no estado. Resultado amplia o conhecimento sobre a dinâmica do carbono no Cerrado.
Goiás apresentou, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), um resultado relevante para sua agenda climática: desde 2006, os ganhos de carbono associados ao crescimento e à recuperação da vegetação vêm superando as perdas decorrentes do desmatamento, da degradação e de outras perturbações. A análise, elaborada pelo Earth Innovation Institute (EII) com dados da Chloris Geospatial, estimou um saldo líquido acumulado de 270 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente até 2024.
O resultado tem sido sintetizado pela expressão “Goiás Carbono Florestal Positivo”. Isso significa que, no recorte analisado, a biomassa lenhosa viva acima do solo retirou da atmosfera mais carbono do que liberou. O cálculo considera tanto as perdas quanto os ganhos de biomassa, permitindo observar, em escala estadual, o efeito combinado da redução do desmatamento, do crescimento da vegetação e da regeneração de áreas anteriormente alteradas.
Esse saldo não significa, entretanto, que Goiás já tenha neutralizado todas as suas emissões de gases de efeito estufa. A análise está concentrada no carbono presente na vegetação lenhosa acima do solo e não inclui, por exemplo, as emissões de metano da pecuária, o consumo de combustíveis, os processos industriais e a gestão de resíduos. Também não contabiliza o carbono armazenado no solo e nas raízes, componentes particularmente importantes nas formações campestres e savânicas do Cerrado.
A estimativa foi produzida a partir de séries anuais de dados de sensoriamento remoto da Chloris Geospatial. A tecnologia combina observações dos satélites Landsat e Sentinel com informações de sensores LiDAR, como o GEDI, da NASA, além de variáveis ambientais e modelos de aprendizado de máquina. O resultado são mapas anuais de biomassa com resolução de 30 metros desde 2000 e de 10 metros a partir de 2017.
A metodologia estima o estoque de biomassa em cada período e compara sua evolução ao longo do tempo. Uma análise estatística de séries temporais ajuda a reduzir ruídos dos sensores, identificar mudanças significativas e calcular as incertezas associadas a cada área. Dessa maneira, é possível localizar ganhos decorrentes do crescimento da vegetação e perdas associadas não apenas à remoção completa da cobertura, mas também à degradação e a outras perturbações que reduzem a densidade de carbono sem necessariamente provocar desmatamento.
É nesse sentido que a abordagem é descrita como uma estimativa direta da mudança de biomassa. Em vez de calcular as emissões apenas pela multiplicação da área desmatada por um fator médio de emissão, ela estima o estoque existente em diferentes momentos. Enquanto dados de desmatamento informam onde a vegetação foi removida, o acompanhamento da biomassa ajuda a compreender quanto carbono foi perdido ou incorporado e permite reconhecer processos graduais de degradação e recuperação.
A base científica dessa abordagem vem sendo desenvolvida há mais de duas décadas por pesquisadores liderados por Alessandro Baccini, cofundador e diretor científico da Chloris. Um estudo publicado em 2004 demonstrou o uso combinado de dados de satélite, variáveis ambientais e modelos de aprendizado de máquina para estimar biomassa em grandes territórios. Em 2012, a equipe mostrou como mapas de densidade de carbono poderiam tornar mais precisas as estimativas de emissões por desmatamento.
Em 2017, um artigo publicado na revista Science avançou ao estimar diretamente ganhos e perdas anuais de carbono na vegetação tropical. O trabalho evidenciou que uma parcela importante das emissões pode decorrer da degradação e da redução da biomassa em áreas que permanecem classificadas como floresta. Também mostrou a importância de contabilizar o movimento inverso: o carbono removido da atmosfera pelo crescimento e pela regeneração da vegetação.
Integrado à Abordagem Jurisdicional para o Desenvolvimento Sustentável, o monitoramento da biomassa permite demonstrar o desempenho ambiental de Goiás em escala territorial. Esses resultados podem fortalecer o acesso a mercados, orientar investimentos e ampliar o financiamento climático. Os resultados podem, ainda, apoiar o planejamento climático, o monitoramento da restauração e a estruturação do Programa Jurisdicional de REDD+ do estado.
A interpretação dos dados exige, contudo, a integração com outras informações territoriais. Um ganho de biomassa não demonstra, por si só, a recuperação da biodiversidade, o restabelecimento da vegetação original ou o cumprimento de obrigações ambientais. Também é necessário diferenciar a regeneração de ecossistemas nativos de outros tipos de cobertura arbórea e considerar que grande parte do carbono do Cerrado se encontra abaixo do solo — aspecto que não é capturado por uma análise restrita à biomassa aérea.
O saldo positivo constitui, portanto, uma evidência importante da capacidade do território goiano de remover e armazenar carbono, mas não representa um ponto de chegada. Sua consolidação depende da continuidade da redução do desmatamento e das queimadas, da proteção das áreas conservadas, da recuperação da vegetação nativa e do aperfeiçoamento permanente dos sistemas de monitoramento. Integrado a inventários de emissões e a informações sobre biodiversidade e uso da terra, esse conhecimento pode orientar políticas públicas e ampliar a credibilidade dos resultados climáticos alcançados por Goiás.